Hoje, convidamos a todos para uma reflexão sobre o trecho de Jeremias (Jr 7,23-28). Este texto revela um lamento de Deus, que se manifesta por meio da voz do profeta Jeremias, acerca do comportamento dos judeus, que ignoraram Suas palavras, rejeitaram os profetas e deixaram de lado a fé, permitindo que suas mentes se deixassem levar por suas próprias perversidades. Ao analisarmos esse problema, destacamos três aspectos principais: a surdez em relação à voz divina, a relevância do profetismo e a condição da fé. A intenção de nossa reflexão é estabelecer uma conexão entre a mensagem de Jeremias e a atual realidade da fé, o abandono de Deus e a ascensão dos evangélicos no Brasil.
Reflexões sobre Jeremias (Jr 7,23-28): Fé, Abandono de Deus e o Crescimento dos Evangélicos no Brasil
A mensagem profética de Jeremias oferece uma luz para compreendermos o cenário atual no Brasil, levantando questionamentos como: Onde estão os bispos e padres que se posicionam como profetas? Eles se silenciaram ou se uniram ao poder? Por que tanto católicos quanto evangélicos se aliam a políticas que não se alinham com a verdadeira mensagem do evangelho? Como está a nossa fé? O que explica o crescente número de evangélicos em nosso país? A profecia, que deu origem à Teologia da Libertação, perdeu seu significado? O que Jeremias tem a nos ensinar nos dias de hoje?
Jeremias se destacou como um profeta atento ao sofrimento de seu povo, mas sua visão avançada para a época muitas vezes o tornava incompreendido. Ele, em sua profunda devoção e crise pessoal, decidiu renunciar ao casamento para dedicar sua vida ao profetismo entre 626 e 587 a.C., em Jerusalém. Ele testemunhou a invasão e destruição de sua cidade sob o comando de Nabucodonosor, o rei da Babilônia, e acompanhou o cativeiro das lideranças religiosas judaicas, que foram levadas para a Babilônia, na atual região do Iraque. Jeremias acreditava que o sofrimento do povo era necessário para que uma renovação na fé e uma nova aliança com Deus pudessem emergir. Mesmo diante das adversidades, sua ação profética foi frutífera, contribuindo para a resiliência do judaísmo durante os cinquenta anos de exílio.
Diante dessa tarefa, Jeremias recebeu de Deus o encargo de erradicar injustiças e promover a justiça divina (Jr 1,10). Suas inseguranças quanto à sua vocação foram apaziguadas com a mensagem de Deus: “Não tenhas receio deles!” (Jr 1,17). Antes do cativeiro babilônico, Jeremias denunciou a corrupção presente nos tribunais e a indiferença dos juízes pelos necessitados (5,28); apontou a ganância dos comerciantes que se beneficiavam das dificuldades alheias (5,27); e criticou os sacerdotes que manipulavam a religião para seus próprios interesses (5,31). Qualquer semelhança com a realidade atual não é mera coincidência.
Jeremias estava persuadido de que a situação do povo era um reflexo claro do abandono pela fé no Deus que os libertou da escravidão no Egito e fez uma aliança com eles. Por essa razão, o exílio foi visto como um castigo legítimo, uma vez que “esta é a nação que não escutou a voz do Senhor seu Deus, e não aceitou correção. Sua fé foi extinta, eliminada de sua boca” (Jr 7,28).
A atual surdez para com Deus e a rejeição à profecia têm muito a ver com a realidade brasileira. Após os resultados do censo de 2010, escrevi um artigo intitulado “Um Brasil Menos Católico”. Naquela época, a população católica correspondia a 64,4%. O que será que o censo de 2022 revelou? Especialistas indicam que em 2032, a quantidade de evangélicos pode superar a de católicos. Não se trata de apenas lamentar essa transformação, mas de analisar os fatores sociais, religiosos e políticos que a geraram. Atualmente, testemunhamos um crescimento nas tensões políticas entre cristãos de diferentes vertentes, além de episódios de violência e intolerância religiosa.
A migração de católicos para o pentecostalismo está diretamente relacionada à ausência de uma prática profética na Igreja Católica? Pode-se dizer que não. É frequente ouvir que a Teologia da Libertação, que promovia um cristianismo que se opunha às injustiças sociais, está morta. Contudo, isso não é a única explicação. A crescente adesão ao pentecostalismo pode ser maiormente atribuída à ascensão social que ele proporciona aos católicos de baixa renda, que migraram do campo para as periferias urbanas, onde não têm recebido a devida atenção dos líderes católicos, que ainda se mantêm em suas igrejas sem abrir mão das tradições.
Por outro lado, se a migração não tivesse ocorrido, o Brasil ainda manteria suas raízes católicas? A resposta é não. A questão é mais econômica e social do que religiosa. Uma nova classe social composta por pessoas de baixa renda, majoritariamente negras e oriundas de áreas periféricas, está emergindo dentro das igrejas evangélicas. Tornar-se pastor ou fazer parte de uma comunidade evangélica nessa realidade é sinônimo de ascensão social.
Os padres que se destacam na mídia, frequentemente, promovem uma espiritualidade devocional que se distancia de um compromisso social emancipador. A juventude católica também busca experiências devocionais. O que leva um católico a rezar a novena de São Miguel Arcanjo às 4h? Seria a falta de uma espiritualidade mais engajada que, historicamente, o cristianismo libertador deixou escapar? Essa brecha foi percebida e ressignificada pelos evangélicos, que, ao compreenderem a veia devocional do povo brasileiro, conseguiram se reinventar nesse contexto. No entanto, essa reinvenção não implica em profetismo. Enquanto líderes religiosos fazem política em Brasília, a Igreja Católica ainda permanece apolítica. Nas eleições recentes, enquanto políticos oriundos da Igreja da Libertação atacavam as lideranças evangélicas de destaque nacional, um ex-católico, de tendências ultraconservadoras, e atual presidente do Brasil venceu com um discurso que mescla jargões bíblicos e uma defesa da moralidade tradicional, jogando com a fé e manipulando a palavra de Deus para seus próprios fins.
Que o nosso Deus e o de Jeremias, que acolhe, protege, orienta e integra, levante em nosso tempo profetas e profetisas semelhantes ao de Jeremias, que nos conduzam de volta à escuta de Deus e revitalizem nossa fé libertadora, especialmente em tempos de falsos profetas e messias.
"Oi, sou a Minerva! , uma leitora ávida e escritora dedicada. Com 25 anos, meu amor por livros me inspirou a criar este blog, onde compartilho resumos e resenhas sobre minhas leituras favoritas. Aqui você encontrará recomendações de livros, reflexões sobre temas importantes e minhas impressões sobre os personagens e enredos que mais me emocionaram. Se você é um amante de livros em busca de novas histórias para se envolver, junte-se a mim nesta jornada literária."
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